quinta-feira, junho 19, 2008


O dia em que a casa... Caiu...
Nos Jardins, bairro nobre de São Paulo, mora muita gente e muita gente bem de vida. As casas são enormes, mansões de fazer qualquer um sonhar em ter algo parecido. A mansão dos Humbertos fica numa das quadras na região, possui muros altos por toda volta e toma o espaço de um quarteirão inteirinho. Quadra de tênis, squash, sauna, piscina, mine academia. “Celildes”(28), “Celi” para os mais próximos, trabalha há quase um ano para um casal. Vinda de Recife direto pro Jardins bairro paulistano, indicação de uma amiga. Conhece ainda apenas o local onde trabalha. È jovem e muito divertida ri até quando se olha no espelho. Celi precisa dormir no serviço. Acorda cedo, o café da manhã é sua primeira tarefa. Serve religiosamente as 6:00 horas. A mesa posta sem esquecer o chá de hortelã, ora camomila, dependendo do recado e do gosto da patroa, e sempre sem açúcar. As 7:00 segura a bandeja de inox, sobre ela as chaves da Hilux novinha. Carro do casal que pontualmente recebem a chave e rapidamente saem da garagem. Ela cumprimenta os patrões mais nunca sabe se estão vendo, pois o carro é todo preto inclusive os vidros. Alguns lembretes ficaram sobre a mesa na cozinha. Celi agora esta só para a faxina diária largando dessa torturante rotina bem tarde da noite. Agora só dentro da casa, pois lá fora está Denilson (30), responsável pela segurança da casa. Denilson repete a mesma cena todas manhãs, da guarita aciona o sistema eletrônico que abre o portão e fecha, e de relance da uma piscadela pra Celi que faz pouco da investida do rapaz.
Celi na cozinha apanha todos os recados e brinca de ser patroa. Põe a touca na vassoura amarra o avental no cabo e sai gesticulando pra quilo era agora a própria Celi. Tenta imitar a matrona, mulher sem paciência e mandona:
- “Celi, limpe os cristais!... Celi troque as roupas de cama!... Celi limpe a jacuzi!... Celi descongele o camarão!... Celi anote os recados!... Celi tire o pó das estantes e móveis com muito cuidado!” Da janela Denílson observa a criada fazendo micagens, teatro. Atentado, vai até a porta, força a maçaneta, é ele agora que se passa de patrão inventando a voz grave do seu Humberto:
- “Celi...Abre essa a porta, esqueci umas coisas rápido!”.
- Celi quase enfarta, escorrega no piso da cozinha e desfaz a graça com uma ligeireza incrível.
Na janela o rapaz observa tudo e ri de escorrer lágrimas.
- Já vai seu Humberto!! A chave,... Achei,... Pronto.
Abre a porta quando ainda tentava ajeitar na pressa os cabelos todinhos pra dentro da touca.
- Ochê! Denilson endoido é! O que você tá fazendo ai parado?...E cadê seu Hurberto?
- Você demorou ele foi simbora!
- A muleque! Qué me mata de susto!
- Até que você leva jeito de patroa! E eu de seu homem e patrãozinho num acha!
- Você sai daqui que eu tenho muito que fazê... Demônio!
- Deixa eu entrar um bucadinho... Celi?
- Ochê! Não! Se tá brincando?... Qué me arruma confusão é.
- Então não vou guardar segredo de tudo que eu vi! Cum esses olhinhos abertinhos!
- Ô Denilson, você não viu nada não e vai daqui Satanás!
- Celi ocê tá indo muito em igreja, é demônio é satanás, ochê...
Celi nervosa empurra a porta pra fechar mais Denilson não deixa travando a porta com as pontas do sapato.
- Então dá um celinho!
- Dô na vassoura más em tu é que num do não!
- Então um cafézinho!... Só um pretinho, quentinho...docinho.. Celizinha?
- Num vem melando que eu não sou doce?
- Só unzinho, eu prometo que eu deixo você trabalhar...
- Tá bom! Espera ai na porta que vou pega, é um gole e chispa daqui! Capeta assanhado!
Denilson aproveita o descuido de Celi, entra e se esconde no interior do armário grande da saleta. Puxa a portinhola e some sem deixar pista.
- Denilson toma esse café e suma daqui... Eita,... ué cadê esse home do cão? Vai sabê?... Eu hem!
Celi então trava a porta nas chaves empurrando só com um dedinho. Vai caminhando num trejeito manhoso, nariz empinado pra cozinha enquanto rebola fazendo ainda o tipo Patroa ricaça dar conta da sua louça e das tarefas que tomam todo seu dia.
O segurança sai do armário, vai pra cozinha e olha de uma distância segura Celi lavando a louça do café. Nas pontas do sapato sorrateiramente se aproxima e agarra a moça pelas costas prendendo as mãos que passam pela sua cintura:
- Celi minha cabra safada!... Diz que sou eu o amor da sua vida diz!... Sou todo seu!... Só tem nóis dois nesse casarão de perder de vista minha neguinha sarada!
- Ochê!... Que é isso...Meu “Deus” Me solta SOCORRO!!!
- Ochê!... È o Denilson Celi!... È só um dengo!...Num precisa buli não, num tá vendo!
- Há seu cachorro maldito é você, vou quebrar essa louça todinha na sua cabeça! Só me faltava essa!
Nervosa, tremula dos pés a cabeça Celi corre atrás de Denilson que foge a procura de proteção envolta da mesa de centro.
- Agora tu não é macho né Denilson. Se eu por as mãos em você eu juro que eu corto suas coisas!
- O Celi não fale isso que eu tremo dos pés a cabeça e o doutor lá na Bahia me falô um dia que isso é o coração! Sera? Eu gam...ooo todinho só de pensa, num tá vendo... Enquanto desse as mãos alisando o corpo da cabeça aos pés.
Quando Denilson ainda fazia sua cena, Celi agarrou um facão infincado na tabua de tempero da pia e saiu atrás do homem, que correu gritando pro interior da casa.
- Celi na sala não!? Tem coisa que quebra e é caro visse!... Tá vendo não!... Cuidado olha o vaso chinês da madame?... È dinastia ming...
(Celi)
- Vou te mostrar a Ming! Agorinha!
- Eita! Já têm até nome amorzinho? Que dilícia...
- ...Eu vou quebrar é sua cabeça seu calango safado! Você mexeu comigo, não se avexe não.
Denilson já com o suor descendo da testa, dá um pinote pula o puf de couro no meio do caminho enquanto segura o quepe e ergue a calça tudo com uma só mão pois teimavam em cair e foge em direção do extenso corredor que dá nos quartos.
Em volta da cama...
- A mulher você pirou é?...Viche! Aqui não!...Ou melhor, aqui sim, por que não?... É o quarto deles, e agora pode sê só nosso...tá vendo não! ... Larga essa faca e deita só um pouquinho aqui nesse ninho de amor com seu calanguinho, já tá até desarrumada e amaciada pra nóis vem!... Ochê ainda tá até quente!...É luxo demais!
- Vai fervê quando eu botar essa mão cheinha de unha nas tuas costas! “O diabo de homem!” Você qué é mesmo morrê? Tô vendo é tudo!
- Eu ainda não vi nadica denada!!! É muita falação pro meu gosto Celizinha...E que demora sem sentido, num acha não?
- Mais será possível que você não se dobra?
- Se quisè eu me dobro em dois, três até quatro, é do seu gosto e do freguês! Você manda hoje...Como se diz,... é a moda da casa!
Celi, cega de ódio atira o facão afiado que passa rasgando o véu do mosquiteiro, que desce do alto da cama e tira uma fina da orelha de Denilson cravando na moldura de madeira do espelho.
- Ochê! É sério mesmo! Pego é fogo a bagaça!!!
(Celi)
- Num precisa nem evoca “Padre Cícero” pois você loguinho vai tá ao vivo com ele, não se avexe não!
Celi pula sobre a cama e Denilson vai pra debaixo e logo sai rastejando do outro lado fugindo em direção ao banheiro ao lado. Entra passa a chave na porta, puxa a cortina de plástico e se deita imóvel dentro da jacuzi. Pela entrada da suíte Celi abre a porta blindex devargazinho entra e trava por dentro.
Vendo seu algoz fingindo morto vivo esparramado, prepara-lhe uma surpresa. Abre o jato na posição inverno máximo, que jorra de tudo que é lado água quente.
- Ochê! Qué é isso meu “Deus” SOCORRO!!!
- Ochê! È a Celi sua neguinha Denilson!!! Não se lembra mais não cabra safado!
Se debatendo todo tenta sair feito peixe no raso. Da banheira Denílson alcança Celi que é puxada pelas tiras do avental pra dentro.... Splash!!
- Enlouqueceu!...Tire suas mãos de mim!
- Eu quero é sair daqui! Tá pelando é tudo. Ta arrancando é o couro! Desliga essa coisa mulhééé!
Deitados e enroscados na jacuzi que transborda, ora um sobre o outro tentam escapar da escorregadia porcelana.
A água quente fez o vapor subir que rapidamente tomou conta da suíte.
Depois de muito custo conseguiram se livrar da luta travada na banheira. As toalhas substituíram seus uniformes encharcados. Enrolados até a cabeça abriram a porta ralhando um ao outro e saíram levando junto todo aquele vapor feito entrada no céu. Pra surpresa Agora estavam de fato enrolados até o talo.
Patrão!!!!
Celi mais Denilson, gritam assustados, parecendo os dois “ gatos escaldados”.
(Denilson)
- Eu poço explicar seu Humberto...
Humberto cara feia e mãos na cintura responde a Denilson:
- Ochênte! Num carece não! Sabe!...
(Denilson)
- Tá vendo Celizinha como o Sr. Humberto é bão pra nóis!...num falei...

(Humberto)
- RUA!!!!

Era demais pra Celi, que não se agüenta mais nas pernas virando os olhinhos pra cima e tombando já no jeito pra desmaiar... Denilson tenta segurá-la mais escorrega dos seus braços, acaba ficando só com a toalha da moça nas mãos...

FIM



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Oriente,Editora Ltda.

segunda-feira, junho 16, 2008


“Oras Bolas”

Quando o mundo acabou, eu estava ainda colocando uma das meias no pé. Estava eu me preparando para jogar futebol. Era meu exercício habitual de pelo menos trinta anos. Como admitir que algo mais importante que jogar, pudesse acontecer naquele instante. Sem mesmo poder antecipá-lo. Com tamanho abrutamento, eu impedido desse evento esportivo que considerava mais importante até então em minha vida. Comparado apenas com o nascimento dos meus filhos. Tinha certeza de não trocá-los por nenhum ou quase nenhum acontecimento mais importante. Sobre este que é um dos meus esportes favoritos. No futebol não há mistérios, considerado de custo baixíssimo envolve bastante esforço físico. Enquanto a mente submissa aos pensamentos mergulha num abismo junto com o crânio. O corpo é arremessado constantemente ao ar livre e inevitavelmente choques acontecem. Imaginem um programa televisivo pré-histórico, pré-estabelecido, pré-dileto, sem muito sentido pra quem não pratica. Entenda: Um bando de machos na maioria peludos sentem prazer em fazer o outro bando de bobo até que consiga roubar-lhe a atenção chutando a redonda pra dentro de um retângulo vazado sem antes passar pelo último jogador, que se chama goleiro. Nem que precise usar do porrete pra que isso aconteça. O palco ou campo de jogo é onde tudo acontece, os tais machos usam de bastante habilidade (dribles) pra cima do outro bando. Eu estava mesmo a ponto de discutir se realmente acabar o mundo era o melhor para acontecer afinal não estavam levando em consideração a minha felicidade humana nessa terra. Sabia que havia sempre aqueles que torciam contra e outros a favor. Mas voltando um pouco no tempo. Quando ainda nas incubadoras celestiais, nos ensinam a ter muito amor e abraçar tudo o que nos trás felicidades. Traduzindo isso quer dizer aproveitar o máximo antes que o juízo final acabe com o jogo.
Então a voz celestial se fez ouvir! – “Você irá nascer naquele planeta redondinho e azulzinho, seu nome é Planeta Terra” – Viu Terra de campinho e redondinho de bola, tudo haver. – Irei nascer neste planeta pra correr atrás da redonda? Pensei. – Espere e verá! Lendo ainda meus pensamentos, a voz grave vindo do altíssimo teve acesso novamente aos meus ouvidos. – “Serão apenas nove meses” De ansiedade conclui... ...Quando ainda tentando me desvencilhar na área adversária congestionada, meus marcadores não permitiam que fizesse a jogada, senão a única possível.
Lembro... O estádio fervilhava. Todo iluminado e coberto, más muito pequeno, quase um cubículo, estavam todos me pressionando. Até minha mãe! Que amparada por uma jovem de chapéu branco, enxugava o suor da sua testa usando um pano, provavelmente a pipoqueira, e mamãe de tão nervosa mordia ferozmente a bandeira aberta esticada sobre o corpo. “... O tempo passa...” Torcida agitada dedos cruzados, no fundo escutava o bumbo ecoando batidas fortes vindo lá das arquibancadas. Enrolado num cordão escorregadio passo driblando por tudo e por todos, antes de tomar uma tesoura do zagueiro que tentou me impedir acertando o cordão de segurança, então caindo só me restou mirar e chutar de bico, um foguete direto no ângulo triangulo obtuso. Não teria mais outra chance. Campo molhado, água no rosto sem poder enxergar um palmo a frente, viajei corpo adentro, entrei com bola e tudo de cabeça na rede pra me certificar do intento. O goleiro já me esperava todo vestido de branco, no seu rápido reflexo senti que me agarrou pelas pernas e me levantou, mais já era tarde, a bola já tinha ido descansar no fundo da rede. Era o gol da vida do maior artilheiro, gritei forte com os punhos cerrados pra que todos ouvissem, Goooolll!!! Ecoando até pra fora do estádio. Lá no saguão, área da imprensa, um grupo de fanáticos torcedores já me esperavam, fizeram tremenda farra, que festa indescritível. Fui carregado de colo em colo enrolado na bandeira do clube. Aquelas luzes vindas do alto em cima, mal podia enxergar. Lembro que me enfiaram o dedão goela abaixo e tiraram água misturada com grama do campo de minha boca. Quando fui deitar para poder descansar, senti o quarto com cama aclimatizada e assim poderia entender o que tinha me acontecido. Antes de fechar meus olhos, um maluco veio lá sabe Deus de onde e desatento meteu minha medalha no meu pulso. Quando acordei olhava tudo ainda muito assustado e tentava relembrar.... Eu gostei mesmo foi do uniforme do clube. Novo, sequinho, quentinho e macio, há isso eu lembro. A festa foi tão porreta, que esqueceram minhas mãos presas na própria roupa, maluquice, nem me mexer podia. Depois vieram com o troféu. - Que baita troféu! Deram-me de presente duas bolas cheias e grandonas, uma delas de reserva ainda na embalagem, que eu cai rapidamente de boca no bico. - “È um lindo menino!” isso eu escutei enquanto sugava, que delicia, que felicidade!... - “Vai ser mais um jogador de bola...” Voz da minha mãe, treinadora claro e dona do passe. Já era minha filha!...Respondi. O que pode ser mais importante na vida de alguém se não for pelo prazer de gostar do que faz. E isso se chama felicidade. Trocar o melhor pelo duvidoso, isso não era uma boa troca, afinal um evento estava para acontecer, o outro tinha acabado com meu mundo.. O mundo acabou! O Que fazer?... A quem implorar?... Sabe quando o garçom vem recolhendo tudo de cima da mesa e você perdido em divagações, estático olhando pensando no mundo segurando o garfo espetado na azeitona da pizza. Foi exatamente o que aconteceu, o mais incrível é que dessa vez ele levou também o garfo. È o mundo acabou! Tudo escureceu e silenciou. Se almenos tivesse o poder de antecipar alguns acontecimentos, não teria nem se quer colocado as meias nos pés, pois nesse dia fraturei o tornozelo do pé esquerdo num buraco desses campinhos dessa terra azulzinha. Foram nove meses de molho, pra mim uma vida.
Mais deixa eu terminar...
“Quem disse que eu parei”
...Ei passa bola!
Gooolll!!!
O maluco do narrador gritou – De bicoVale?
....esquece!



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