quinta-feira, junho 19, 2008


O dia em que a casa... Caiu...
Nos Jardins, bairro nobre de São Paulo, mora muita gente e muita gente bem de vida. As casas são enormes, mansões de fazer qualquer um sonhar em ter algo parecido. A mansão dos Humbertos fica numa das quadras na região, possui muros altos por toda volta e toma o espaço de um quarteirão inteirinho. Quadra de tênis, squash, sauna, piscina, mine academia. “Celildes”(28), “Celi” para os mais próximos, trabalha há quase um ano para um casal. Vinda de Recife direto pro Jardins bairro paulistano, indicação de uma amiga. Conhece ainda apenas o local onde trabalha. È jovem e muito divertida ri até quando se olha no espelho. Celi precisa dormir no serviço. Acorda cedo, o café da manhã é sua primeira tarefa. Serve religiosamente as 6:00 horas. A mesa posta sem esquecer o chá de hortelã, ora camomila, dependendo do recado e do gosto da patroa, e sempre sem açúcar. As 7:00 segura a bandeja de inox, sobre ela as chaves da Hilux novinha. Carro do casal que pontualmente recebem a chave e rapidamente saem da garagem. Ela cumprimenta os patrões mais nunca sabe se estão vendo, pois o carro é todo preto inclusive os vidros. Alguns lembretes ficaram sobre a mesa na cozinha. Celi agora esta só para a faxina diária largando dessa torturante rotina bem tarde da noite. Agora só dentro da casa, pois lá fora está Denilson (30), responsável pela segurança da casa. Denilson repete a mesma cena todas manhãs, da guarita aciona o sistema eletrônico que abre o portão e fecha, e de relance da uma piscadela pra Celi que faz pouco da investida do rapaz.
Celi na cozinha apanha todos os recados e brinca de ser patroa. Põe a touca na vassoura amarra o avental no cabo e sai gesticulando pra quilo era agora a própria Celi. Tenta imitar a matrona, mulher sem paciência e mandona:
- “Celi, limpe os cristais!... Celi troque as roupas de cama!... Celi limpe a jacuzi!... Celi descongele o camarão!... Celi anote os recados!... Celi tire o pó das estantes e móveis com muito cuidado!” Da janela Denílson observa a criada fazendo micagens, teatro. Atentado, vai até a porta, força a maçaneta, é ele agora que se passa de patrão inventando a voz grave do seu Humberto:
- “Celi...Abre essa a porta, esqueci umas coisas rápido!”.
- Celi quase enfarta, escorrega no piso da cozinha e desfaz a graça com uma ligeireza incrível.
Na janela o rapaz observa tudo e ri de escorrer lágrimas.
- Já vai seu Humberto!! A chave,... Achei,... Pronto.
Abre a porta quando ainda tentava ajeitar na pressa os cabelos todinhos pra dentro da touca.
- Ochê! Denilson endoido é! O que você tá fazendo ai parado?...E cadê seu Hurberto?
- Você demorou ele foi simbora!
- A muleque! Qué me mata de susto!
- Até que você leva jeito de patroa! E eu de seu homem e patrãozinho num acha!
- Você sai daqui que eu tenho muito que fazê... Demônio!
- Deixa eu entrar um bucadinho... Celi?
- Ochê! Não! Se tá brincando?... Qué me arruma confusão é.
- Então não vou guardar segredo de tudo que eu vi! Cum esses olhinhos abertinhos!
- Ô Denilson, você não viu nada não e vai daqui Satanás!
- Celi ocê tá indo muito em igreja, é demônio é satanás, ochê...
Celi nervosa empurra a porta pra fechar mais Denilson não deixa travando a porta com as pontas do sapato.
- Então dá um celinho!
- Dô na vassoura más em tu é que num do não!
- Então um cafézinho!... Só um pretinho, quentinho...docinho.. Celizinha?
- Num vem melando que eu não sou doce?
- Só unzinho, eu prometo que eu deixo você trabalhar...
- Tá bom! Espera ai na porta que vou pega, é um gole e chispa daqui! Capeta assanhado!
Denilson aproveita o descuido de Celi, entra e se esconde no interior do armário grande da saleta. Puxa a portinhola e some sem deixar pista.
- Denilson toma esse café e suma daqui... Eita,... ué cadê esse home do cão? Vai sabê?... Eu hem!
Celi então trava a porta nas chaves empurrando só com um dedinho. Vai caminhando num trejeito manhoso, nariz empinado pra cozinha enquanto rebola fazendo ainda o tipo Patroa ricaça dar conta da sua louça e das tarefas que tomam todo seu dia.
O segurança sai do armário, vai pra cozinha e olha de uma distância segura Celi lavando a louça do café. Nas pontas do sapato sorrateiramente se aproxima e agarra a moça pelas costas prendendo as mãos que passam pela sua cintura:
- Celi minha cabra safada!... Diz que sou eu o amor da sua vida diz!... Sou todo seu!... Só tem nóis dois nesse casarão de perder de vista minha neguinha sarada!
- Ochê!... Que é isso...Meu “Deus” Me solta SOCORRO!!!
- Ochê!... È o Denilson Celi!... È só um dengo!...Num precisa buli não, num tá vendo!
- Há seu cachorro maldito é você, vou quebrar essa louça todinha na sua cabeça! Só me faltava essa!
Nervosa, tremula dos pés a cabeça Celi corre atrás de Denilson que foge a procura de proteção envolta da mesa de centro.
- Agora tu não é macho né Denilson. Se eu por as mãos em você eu juro que eu corto suas coisas!
- O Celi não fale isso que eu tremo dos pés a cabeça e o doutor lá na Bahia me falô um dia que isso é o coração! Sera? Eu gam...ooo todinho só de pensa, num tá vendo... Enquanto desse as mãos alisando o corpo da cabeça aos pés.
Quando Denilson ainda fazia sua cena, Celi agarrou um facão infincado na tabua de tempero da pia e saiu atrás do homem, que correu gritando pro interior da casa.
- Celi na sala não!? Tem coisa que quebra e é caro visse!... Tá vendo não!... Cuidado olha o vaso chinês da madame?... È dinastia ming...
(Celi)
- Vou te mostrar a Ming! Agorinha!
- Eita! Já têm até nome amorzinho? Que dilícia...
- ...Eu vou quebrar é sua cabeça seu calango safado! Você mexeu comigo, não se avexe não.
Denilson já com o suor descendo da testa, dá um pinote pula o puf de couro no meio do caminho enquanto segura o quepe e ergue a calça tudo com uma só mão pois teimavam em cair e foge em direção do extenso corredor que dá nos quartos.
Em volta da cama...
- A mulher você pirou é?...Viche! Aqui não!...Ou melhor, aqui sim, por que não?... É o quarto deles, e agora pode sê só nosso...tá vendo não! ... Larga essa faca e deita só um pouquinho aqui nesse ninho de amor com seu calanguinho, já tá até desarrumada e amaciada pra nóis vem!... Ochê ainda tá até quente!...É luxo demais!
- Vai fervê quando eu botar essa mão cheinha de unha nas tuas costas! “O diabo de homem!” Você qué é mesmo morrê? Tô vendo é tudo!
- Eu ainda não vi nadica denada!!! É muita falação pro meu gosto Celizinha...E que demora sem sentido, num acha não?
- Mais será possível que você não se dobra?
- Se quisè eu me dobro em dois, três até quatro, é do seu gosto e do freguês! Você manda hoje...Como se diz,... é a moda da casa!
Celi, cega de ódio atira o facão afiado que passa rasgando o véu do mosquiteiro, que desce do alto da cama e tira uma fina da orelha de Denilson cravando na moldura de madeira do espelho.
- Ochê! É sério mesmo! Pego é fogo a bagaça!!!
(Celi)
- Num precisa nem evoca “Padre Cícero” pois você loguinho vai tá ao vivo com ele, não se avexe não!
Celi pula sobre a cama e Denilson vai pra debaixo e logo sai rastejando do outro lado fugindo em direção ao banheiro ao lado. Entra passa a chave na porta, puxa a cortina de plástico e se deita imóvel dentro da jacuzi. Pela entrada da suíte Celi abre a porta blindex devargazinho entra e trava por dentro.
Vendo seu algoz fingindo morto vivo esparramado, prepara-lhe uma surpresa. Abre o jato na posição inverno máximo, que jorra de tudo que é lado água quente.
- Ochê! Qué é isso meu “Deus” SOCORRO!!!
- Ochê! È a Celi sua neguinha Denilson!!! Não se lembra mais não cabra safado!
Se debatendo todo tenta sair feito peixe no raso. Da banheira Denílson alcança Celi que é puxada pelas tiras do avental pra dentro.... Splash!!
- Enlouqueceu!...Tire suas mãos de mim!
- Eu quero é sair daqui! Tá pelando é tudo. Ta arrancando é o couro! Desliga essa coisa mulhééé!
Deitados e enroscados na jacuzi que transborda, ora um sobre o outro tentam escapar da escorregadia porcelana.
A água quente fez o vapor subir que rapidamente tomou conta da suíte.
Depois de muito custo conseguiram se livrar da luta travada na banheira. As toalhas substituíram seus uniformes encharcados. Enrolados até a cabeça abriram a porta ralhando um ao outro e saíram levando junto todo aquele vapor feito entrada no céu. Pra surpresa Agora estavam de fato enrolados até o talo.
Patrão!!!!
Celi mais Denilson, gritam assustados, parecendo os dois “ gatos escaldados”.
(Denilson)
- Eu poço explicar seu Humberto...
Humberto cara feia e mãos na cintura responde a Denilson:
- Ochênte! Num carece não! Sabe!...
(Denilson)
- Tá vendo Celizinha como o Sr. Humberto é bão pra nóis!...num falei...

(Humberto)
- RUA!!!!

Era demais pra Celi, que não se agüenta mais nas pernas virando os olhinhos pra cima e tombando já no jeito pra desmaiar... Denilson tenta segurá-la mais escorrega dos seus braços, acaba ficando só com a toalha da moça nas mãos...

FIM



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segunda-feira, junho 16, 2008


“Oras Bolas”

Quando o mundo acabou, eu estava ainda colocando uma das meias no pé. Estava eu me preparando para jogar futebol. Era meu exercício habitual de pelo menos trinta anos. Como admitir que algo mais importante que jogar, pudesse acontecer naquele instante. Sem mesmo poder antecipá-lo. Com tamanho abrutamento, eu impedido desse evento esportivo que considerava mais importante até então em minha vida. Comparado apenas com o nascimento dos meus filhos. Tinha certeza de não trocá-los por nenhum ou quase nenhum acontecimento mais importante. Sobre este que é um dos meus esportes favoritos. No futebol não há mistérios, considerado de custo baixíssimo envolve bastante esforço físico. Enquanto a mente submissa aos pensamentos mergulha num abismo junto com o crânio. O corpo é arremessado constantemente ao ar livre e inevitavelmente choques acontecem. Imaginem um programa televisivo pré-histórico, pré-estabelecido, pré-dileto, sem muito sentido pra quem não pratica. Entenda: Um bando de machos na maioria peludos sentem prazer em fazer o outro bando de bobo até que consiga roubar-lhe a atenção chutando a redonda pra dentro de um retângulo vazado sem antes passar pelo último jogador, que se chama goleiro. Nem que precise usar do porrete pra que isso aconteça. O palco ou campo de jogo é onde tudo acontece, os tais machos usam de bastante habilidade (dribles) pra cima do outro bando. Eu estava mesmo a ponto de discutir se realmente acabar o mundo era o melhor para acontecer afinal não estavam levando em consideração a minha felicidade humana nessa terra. Sabia que havia sempre aqueles que torciam contra e outros a favor. Mas voltando um pouco no tempo. Quando ainda nas incubadoras celestiais, nos ensinam a ter muito amor e abraçar tudo o que nos trás felicidades. Traduzindo isso quer dizer aproveitar o máximo antes que o juízo final acabe com o jogo.
Então a voz celestial se fez ouvir! – “Você irá nascer naquele planeta redondinho e azulzinho, seu nome é Planeta Terra” – Viu Terra de campinho e redondinho de bola, tudo haver. – Irei nascer neste planeta pra correr atrás da redonda? Pensei. – Espere e verá! Lendo ainda meus pensamentos, a voz grave vindo do altíssimo teve acesso novamente aos meus ouvidos. – “Serão apenas nove meses” De ansiedade conclui... ...Quando ainda tentando me desvencilhar na área adversária congestionada, meus marcadores não permitiam que fizesse a jogada, senão a única possível.
Lembro... O estádio fervilhava. Todo iluminado e coberto, más muito pequeno, quase um cubículo, estavam todos me pressionando. Até minha mãe! Que amparada por uma jovem de chapéu branco, enxugava o suor da sua testa usando um pano, provavelmente a pipoqueira, e mamãe de tão nervosa mordia ferozmente a bandeira aberta esticada sobre o corpo. “... O tempo passa...” Torcida agitada dedos cruzados, no fundo escutava o bumbo ecoando batidas fortes vindo lá das arquibancadas. Enrolado num cordão escorregadio passo driblando por tudo e por todos, antes de tomar uma tesoura do zagueiro que tentou me impedir acertando o cordão de segurança, então caindo só me restou mirar e chutar de bico, um foguete direto no ângulo triangulo obtuso. Não teria mais outra chance. Campo molhado, água no rosto sem poder enxergar um palmo a frente, viajei corpo adentro, entrei com bola e tudo de cabeça na rede pra me certificar do intento. O goleiro já me esperava todo vestido de branco, no seu rápido reflexo senti que me agarrou pelas pernas e me levantou, mais já era tarde, a bola já tinha ido descansar no fundo da rede. Era o gol da vida do maior artilheiro, gritei forte com os punhos cerrados pra que todos ouvissem, Goooolll!!! Ecoando até pra fora do estádio. Lá no saguão, área da imprensa, um grupo de fanáticos torcedores já me esperavam, fizeram tremenda farra, que festa indescritível. Fui carregado de colo em colo enrolado na bandeira do clube. Aquelas luzes vindas do alto em cima, mal podia enxergar. Lembro que me enfiaram o dedão goela abaixo e tiraram água misturada com grama do campo de minha boca. Quando fui deitar para poder descansar, senti o quarto com cama aclimatizada e assim poderia entender o que tinha me acontecido. Antes de fechar meus olhos, um maluco veio lá sabe Deus de onde e desatento meteu minha medalha no meu pulso. Quando acordei olhava tudo ainda muito assustado e tentava relembrar.... Eu gostei mesmo foi do uniforme do clube. Novo, sequinho, quentinho e macio, há isso eu lembro. A festa foi tão porreta, que esqueceram minhas mãos presas na própria roupa, maluquice, nem me mexer podia. Depois vieram com o troféu. - Que baita troféu! Deram-me de presente duas bolas cheias e grandonas, uma delas de reserva ainda na embalagem, que eu cai rapidamente de boca no bico. - “È um lindo menino!” isso eu escutei enquanto sugava, que delicia, que felicidade!... - “Vai ser mais um jogador de bola...” Voz da minha mãe, treinadora claro e dona do passe. Já era minha filha!...Respondi. O que pode ser mais importante na vida de alguém se não for pelo prazer de gostar do que faz. E isso se chama felicidade. Trocar o melhor pelo duvidoso, isso não era uma boa troca, afinal um evento estava para acontecer, o outro tinha acabado com meu mundo.. O mundo acabou! O Que fazer?... A quem implorar?... Sabe quando o garçom vem recolhendo tudo de cima da mesa e você perdido em divagações, estático olhando pensando no mundo segurando o garfo espetado na azeitona da pizza. Foi exatamente o que aconteceu, o mais incrível é que dessa vez ele levou também o garfo. È o mundo acabou! Tudo escureceu e silenciou. Se almenos tivesse o poder de antecipar alguns acontecimentos, não teria nem se quer colocado as meias nos pés, pois nesse dia fraturei o tornozelo do pé esquerdo num buraco desses campinhos dessa terra azulzinha. Foram nove meses de molho, pra mim uma vida.
Mais deixa eu terminar...
“Quem disse que eu parei”
...Ei passa bola!
Gooolll!!!
O maluco do narrador gritou – De bicoVale?
....esquece!



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sábado, março 01, 2008



Só pode ser Milagre!






Todos os anos comemora-se a festa religiosa em homenagem à imagem da Purificação, que se realiza na segunda semana de janeiro. Com muita antecedência a cidade se prepara. A festa acontece a mais de cento e cinqüenta anos.Conta-se na cidade que a estátua foi encontrada encravada em uma rocha por mineiros que trabalhavam numa pedreira. Ao dinamitarem a pedreira a poeira abaixou e a estátua surgiu em pé, intacta aos pés dos trabalhadores. A partir dessa explosão, dessa descoberta e desse milagre, a notícia se espalhou como raio em dia de tempestade.
Tão logo ...A romaria.
Caravanas seguiram para o local da aparição, milhares de pessoas vieram dos mais diferentes lugares e das mais longínquas cidades. Três dias depois da aparição o percurso realizado pelos trabalhadores mineiros, era batizado com água purificada por um religioso feito as pressas. Romeiros abriram o caminho para a santa peregrinação. A Cidade. Foi construída por trabalhadores que ficavam muitos dias no local da extração e não podiam retornar as suas cidades. Existia no local apenas a pedreira e uma pequena capela. Com o crescimento econômico em torno da pedreira, o local ganhou força e rapidamente o comércio e a expansão populacional transformou o pequeno e desconhecido vilarejo em uma cidade. A princípio conhecida por “Pedreira”. Com a aparição da imagem a Prefeitura de Pedreira determinou a mudança do nome para “Purificação”, isso na década final de1850.
Estamos no ano do seu Centésimo qüinquagésimo segundo ano da aparição e a movimentação é grande.
2002.
Atualmente moram cerca de 15, mil pessoas, entre netos, tataranetos dos fundadores. A cidade vive da mão-de-obra agrícola e de algumas pequenas industrias.
O Padre Bento que congrega na igreja há nove anos festeja no mesmo mês seu décimo ano á frente da igreja. Carismático e continuista aos preceitos religiosos da paróquia recebe sempre com muita alegria os festejos que homenageiam Purificação.
Seus maiores desafetos são com o Prefeito, Dr. Caldésio, ou melhor, como diz o Padre “Coronel Caldésio”, doutor é por parte da sua ignorância, quase um jumento no trato com os assuntos de importância administrativa e religiosa da cidade. Padre Bento nunca aceitou que o Prefeito se misturasse a assuntos religiosos e o Prefeito também, nunca permitiu que a igreja se atrevesse em assuntos ligados a responsabilidade do Prefeito e da sua atual administração. Dr. Caldésio não tinha nenhuma idéia sobre o que era “marketing”, mas sabia vender bem sua imagem, não perderia a oportunidade de junto à igreja mostrar ao povo que sua fé andava junto com a política. Subiria nos palanques, acenaria para todos, pegaria crianças no colo para beijá-las e de mãos dada com o Padre ergueria para o céu em sinal de pureza e humildade para com o Criador. Mesmo a contra-gosto do Padre. O povo precisava vê-lo.
Ostentando um perdularismo coronelício Dr. Caldésio nunca escondeu dos cidadãos purificaçãolenses a rudeza no trato público, ninguém se metia a discutir ou difamar sua administração com medo de parar na cadeia. Filho de Coronel, o falecido Miguelito, Caldésio era considerado por todos a própria encarnação do pai. Era mais temido que um “coice de mula”.O único que se atrevia na oposição ao Prefeito era o Padre e como o Padre não podia ir preso. Ainda...
A Festa.
Um dia antes da procissão que precede a abertura dos festejos, o sacristão ao sair da sacristia deu dois passos e caiu ajoelhado feito fruta madura; segurou as duas mãos em sinal de prece e de frente parta o altar deu um grito e desmaiou no chão brilhoso e gelado da igreja. Arranjos, vasos e flores espalhados. Acordou, ficou em pé, olhou pro alto e só não desfaleceu novamente porque se agarrou firme a um pilar. Disse pra si: – Meu Deus do céu a estatua sumiu! À imagem sumira do pedestal, apenas o véu branco que cobre sua cabeça, ficou caído de lado. Sem fala o religioso foi cambaleando procurar o Padre, quase não se agüentava nas pernas. Saiu em disparada deixando escancarada a porta da igreja enquanto descia a escadaria com as mãos á cabeça. Padre Bento no momento subia a escadaria da igreja quando viu o moribundo passar por ele em disparada carregando poeira e muita folha seca caída das árvores. Gritou então pelo homem.
- Salomé enlouqueceu criatura!
- Agora não, vou atrás do Padre.
- Que padre abestalhado! Sou eu homem de Deus!
Salomé subiu a escadaria ofegante beijou a mão do pároco tossindo enquanto pedia sua bênção e se desculpava. – Respira fundo homem de Deus, parece que viu a noiva sem cabeça? - E foi pior, antes tivesse visto a noiva! disse Salomé ainda faltando-lhe ar. Então começou a contar o que tinha visto e não acreditado...
Padre Bento puxou Salomé pelos colarinho pra dentro e trancou a igreja batendo a imensa porta de madeira talhada a mão.
- Tome essa água criatura e me diga com calma o que te acometeu.
Refazendo o percurso o sacristão batia o queixo, tremendo dos pés a cabeça, detalhou ao Padre terminando com as duas mão dirigidas apontadas para o alto.
- Padre não posso acreditar, sai da sacristia e vi tudo remexido no salão e a estatua, ela desapareceu!
- Pai eterno!
- Quem poderia ter assaltado a casa do senhor?
- Primeiro não diga nada a ninguém que viu o que não viu!
- Nem a polícia? disse Salomé.
- Nem a polícia e a ninguém, se fui bem claro.
- Vou pensar o que fazer.
- Por enquanto limpe tudo isso, mas antes...
- Ajoelhe comigo e rezemos pedindo pro céus uma solução.
Enquanto rezava segurando as mãos de Salomé, imaginava a procissão saindo sem a estatua.
Decidiram esperar até anoitecer para quem sabe esse pecador pudesse mudar de idéia e então devolveria a estatua.
A igreja permaneceu fechada durante a tarde e a noite.
O dia amanheceu, logo pela manhã a movimentação tomava desenvoltura, os últimos detalhes quanto à organização era realizado. Na igreja o Padre Bento inconformado tinha de pensar em algo, passou em vigília durante a madrugada e nada da imagem. Estava com olhos fundos, cansado entre a cruz e a espada. Revelar o sumiço nesse momento causaria um tremendo alvoroço, e o cancelamento da festa, impossível nesse momento. Desfilar sem a estátua nem pensar.
Como acontece em todos os anos, hoje ás 19:00 hs. O cortejo deverá sair da igreja pela ruas da cidade.
Poucas horas antes, Padre Bento se trancou numa sala com Salomé para tomar uma decisão.
Os fieis já tomavam seus lugares se aproximando da porta da igreja para saldar Purificação com as velas acesas. A banda de música tomava sua posição, políticos iam chegando e a tarde foi cobrindo o céu para anunciar que em breve dariam início os festejos.
Quando a porta da igreja se abriu, coroinhas vestidos de anjos vieram à frente segurando partituras e harpas douradas, chuva de pétalas de rosas caíam em cima saudando a procissão. O maestro pôs a banda para tocar enquanto os foguetes cruzavam o céu para delírio da multidão. Padre Bento se aproximou da porta sendo saudado e logo atrás o andor era levado com a santa imagem toda coberta de flores e o véu por cima cobrindo a cabeça. O andor prosseguiu pelas ruas causando comoção aos fiéis que se esforçavam para tocar na estatua e pedir proteção.
O cortejo se aproximou do palanque onde o Prefeito esperava para saudar a imagem. Parada obrigatória. Dr. Caldésio leu seu discurso emocionado e cansativo abrindo as portas da cidade aos visitantes, praticamente implorando para deixassem seu ricos dinheirinhos na cidade, antes mesmo do encerramento, a banda voltou a tocar e o Padre Bento inesperadamente acelerou os passos do cortejo até finalizar ao chegar ha igreja fechando as portas. Muito dos fiéis se acotovelavam, queriam se aproximar da imagem, outros tantos eram loucamente carregados desmaiados e levados pelos socorristas até as ambulâncias de plantão. Mais que o normal, não era possível tal acometimento coletivo e repentino. No interior da igreja, de dentro do andor saiu as pressas Salomé arrancando flores e o véu que lhe cobria toda a cabeça, correndo em disparada quase voando do chão para o banheiro. Padre bento correu ao seu incauto, segurando-lhe pelos braços.
- Salomé me diga o que foi aquilo lá fora? Sentado no banco Salomé fez o sinal da cruz e contou ao Padre.
- Padre no retorno á igreja avistei a porta da igreja e eu já vinha apertado na vontade de usar o banheiro, cruzei as penas varias vezes durante o percurso e no discurso do Prefeito não agüentava mais e com a aproximação e a multidão bloqueando a passagem querendo tocar em mim, ou melhor, na Santa Imagem, vi que acelerou o cortejo, foi a gota d’água, na pressa de chegar fui batendo de mão em mão cumprimentando os fiéis, na idéia, na solução, de chegar mais rápido, mais depressa. Então muitos eu vi caindo pelo caminho, outros tantos gritavam “é milagre...”
- Graças a Deus chegamos a tempo, disse Salomé, enquanto o outro punha as duas mãos sobre a cabeça.
Nisso o Dr. Caldésio entra na igreja escancarando a porta escoltada de dois membros da guardas-civil que ficaram parados, demonstrando profunda irritação, se aproxima pisando duro tal cavalo no trote, apoiando o punho na cintura e a outra mão sobre o facão preso na cinta.Disse saindo fumaça pelas ventas.
- Quem ordenou a você Padre excomungado, que corresse com o cortejo?
- E você anão da sacristia, onde está a imagem que deveria estar dentro desta caixa? ...apontando com o dedo em riste para o andor todo desarrumado.
- Sem demora Salomé respondeu:
- Ela ia ao banheiro, se é que me entende!
- Insolente!
O Prefeito sem perceber a cena ridícula que prestava encarregou-se de averiguar se era verdade o que dizia Salomé. Tão rápido se encaminhou até o banheiro.
O Padre já de joelhos pedia perdão em prece e se ainda tinha créditos que Deus concedesse nesse momento.
Tão logo igreja ficou repleta de curiosos contidos na entrada pelos guardas do Prefeito. Nisso Caldésio retorna não menos irritado e apontando o dedo para os dois falou em tom de vingança gritando - Exigirei respostas pelo ocorrido nesta noite, alguma coisa me está cheirando mal!
Sem uma palavra e sem se despedir, rumou pelo corredor batendo as botas feito cavalo bravo até a porta onde desapareceu após empurrar diversos curiosos que se aglomeravam na entrada levando seus seguranças a tira colo.
A paz parecia ter se restabelecido, mas o que teria visto Caldésio no banheiro?
Correram o Padre e o sacristão até chegar na porta e gritar “MILAGRE” a santa voltou!
Abraçados os dois pularam, sorriram e choraram. Purificação estava salva.
E o mistério persiste pela cidade, as opiniões se dividem, foi ou não foi mais um milagre! Quem tocou na mão dos fiéis! Salomé! Como a santa foi parar no banheiro!
O certo é que mais um ano passou com a graça e a proteção de Purificação.
Quanto às explicações ao Prefeito, Padre Bento, não tardou em dar o troco.
Em carta enviada dizia:

Sr. Excelentíssimo Prefeito, Não devo explicações sobre o que ocorreu naquele dia, pois não costumamos explicar “Milagres”, e sobre o desmaios de alguns populares, queira me desculpar, O povo é e sempre será mais fiel a “Fé” e menos apegado a Política.

Atenciosamente

Padre Bento
Igreja da Purificação


Bem-vindo à Purificação
152 anos da Aparição

A Cidade dos Milagres




Autor/Escritor/Reinaldo Nunes Proença
Oriente,Editora ltda

Um pedaço de madeira abraçado à grafite/


Percorre linhas longínquas/ Linhas na contemplação/ Sentimentos/ A dor/ Lições/ Sofrimentos/ As lembranças/ Saudades aos pensamentos/ Frágeis os lamentos/ Que sejam nas emoções que envolvem a alegria/ Sorrisos enfim/
Quando as nuvens escuras tomam o céu, faz-se a Chuva e o vento/ para espalhar as milhares de gotas frias/ Trovões em meu peito arrebentam/ Arrebatam/ Folhas em mil formas e cores/ Invento o céu/ No vácuo entre a luz e a Vida/ Como Caminhos/ Muito mais que caminhos/ Como campos abertos pela imaginação/
Como o céu que desce sobre meus olhos/ As tormentas são meus desejos/ Cinzas são todos os meus olhares/
Nas linhas em cinzas/ Palavras grafitadas/ Um silêncio sem fim/
Vai num vazio/ Descalço pelas estradas dos sonhos/Até o final/ Vai/
/Reflexos/ Reflexivo olhar/Interminável linha/ Precipitasse/
Voa/
Voa palavra sobre as linhas/
Voa meu verbo/
Voa em brancas nuvens que nos une e nos separa/
Em cada encontro lajeando/ Fraseando/ Poemas ora rimas ora romanceando num paralelo/ Brincadeira real/
Abre este céu feito véu e que descortina/ Clareia/ Desvenda sobre os ventos que os sonhos adormeceram/
Intermináveis linhas deixadas como cinzas nessa minha vida/
Quando então o céu traz o azul/ Azul são todos os meus olhares/ A cinzas deixo aos ventos/ Além muito mais além das linhas de um tempo só meu/ Os campos eu vejo em flores/ Borboletas azuis anil/
Luz de todo sol poente/
Por entre folhas de um lindo jardim/ Em quantas linhas/
A linha da vida percorre? Das mais criativas ilusões/
Escrever e fazer das linhas páginas e mais páginas/
Livros/ Memórias de um amor/
E delas poder viver e reviver/
Desenhos feitos a mão nas nuvens brancas da inspiração/
Na luz clara e verdadeira de toda criação/
Abraçado feito madeira à grafite até o fim da linha eu irei/
Quem sabe não tenha que precisar mais apagar tantos erros/ Nem precisar correr os mesmos riscos/
Num ponto onde tudo volta/
Muito além/ Muito mais além de um ponto qualquer/
De um frágil e minúsculo ponto final/
Escrever das linhas a própria vida/
Criando a própria história/
Onde antes apenas era eu/ O principio/ meio e fim/
Abraçado feito madeira à grafite/
Interminável feito um abraço/
Infinito feito universo/
Assim como é “Deus” em mim/






Reinaldo_rnp@hotmail.com
http://www.reinaldornp.blogspot.com/

Todos os direitos@reservados
Oriente,Editora ltda.