
Só pode ser Milagre!
Todos os anos comemora-se a festa religiosa em homenagem à imagem da Purificação, que se realiza na segunda semana de janeiro. Com muita antecedência a cidade se prepara. A festa acontece a mais de cento e cinqüenta anos.Conta-se na cidade que a estátua foi encontrada encravada em uma rocha por mineiros que trabalhavam numa pedreira. Ao dinamitarem a pedreira a poeira abaixou e a estátua surgiu em pé, intacta aos pés dos trabalhadores. A partir dessa explosão, dessa descoberta e desse milagre, a notícia se espalhou como raio em dia de tempestade.
Tão logo ...A romaria.
Caravanas seguiram para o local da aparição, milhares de pessoas vieram dos mais diferentes lugares e das mais longínquas cidades. Três dias depois da aparição o percurso realizado pelos trabalhadores mineiros, era batizado com água purificada por um religioso feito as pressas. Romeiros abriram o caminho para a santa peregrinação. A Cidade. Foi construída por trabalhadores que ficavam muitos dias no local da extração e não podiam retornar as suas cidades. Existia no local apenas a pedreira e uma pequena capela. Com o crescimento econômico em torno da pedreira, o local ganhou força e rapidamente o comércio e a expansão populacional transformou o pequeno e desconhecido vilarejo em uma cidade. A princípio conhecida por “Pedreira”. Com a aparição da imagem a Prefeitura de Pedreira determinou a mudança do nome para “Purificação”, isso na década final de1850.
Estamos no ano do seu Centésimo qüinquagésimo segundo ano da aparição e a movimentação é grande.
2002.
Atualmente moram cerca de 15, mil pessoas, entre netos, tataranetos dos fundadores. A cidade vive da mão-de-obra agrícola e de algumas pequenas industrias.
O Padre Bento que congrega na igreja há nove anos festeja no mesmo mês seu décimo ano á frente da igreja. Carismático e continuista aos preceitos religiosos da paróquia recebe sempre com muita alegria os festejos que homenageiam Purificação.
Seus maiores desafetos são com o Prefeito, Dr. Caldésio, ou melhor, como diz o Padre “Coronel Caldésio”, doutor é por parte da sua ignorância, quase um jumento no trato com os assuntos de importância administrativa e religiosa da cidade. Padre Bento nunca aceitou que o Prefeito se misturasse a assuntos religiosos e o Prefeito também, nunca permitiu que a igreja se atrevesse em assuntos ligados a responsabilidade do Prefeito e da sua atual administração. Dr. Caldésio não tinha nenhuma idéia sobre o que era “marketing”, mas sabia vender bem sua imagem, não perderia a oportunidade de junto à igreja mostrar ao povo que sua fé andava junto com a política. Subiria nos palanques, acenaria para todos, pegaria crianças no colo para beijá-las e de mãos dada com o Padre ergueria para o céu em sinal de pureza e humildade para com o Criador. Mesmo a contra-gosto do Padre. O povo precisava vê-lo.
Ostentando um perdularismo coronelício Dr. Caldésio nunca escondeu dos cidadãos purificaçãolenses a rudeza no trato público, ninguém se metia a discutir ou difamar sua administração com medo de parar na cadeia. Filho de Coronel, o falecido Miguelito, Caldésio era considerado por todos a própria encarnação do pai. Era mais temido que um “coice de mula”.O único que se atrevia na oposição ao Prefeito era o Padre e como o Padre não podia ir preso. Ainda...
A Festa.
Um dia antes da procissão que precede a abertura dos festejos, o sacristão ao sair da sacristia deu dois passos e caiu ajoelhado feito fruta madura; segurou as duas mãos em sinal de prece e de frente parta o altar deu um grito e desmaiou no chão brilhoso e gelado da igreja. Arranjos, vasos e flores espalhados. Acordou, ficou em pé, olhou pro alto e só não desfaleceu novamente porque se agarrou firme a um pilar. Disse pra si: – Meu Deus do céu a estatua sumiu! À imagem sumira do pedestal, apenas o véu branco que cobre sua cabeça, ficou caído de lado. Sem fala o religioso foi cambaleando procurar o Padre, quase não se agüentava nas pernas. Saiu em disparada deixando escancarada a porta da igreja enquanto descia a escadaria com as mãos á cabeça. Padre Bento no momento subia a escadaria da igreja quando viu o moribundo passar por ele em disparada carregando poeira e muita folha seca caída das árvores. Gritou então pelo homem.
- Salomé enlouqueceu criatura!
- Agora não, vou atrás do Padre.
- Que padre abestalhado! Sou eu homem de Deus!
Salomé subiu a escadaria ofegante beijou a mão do pároco tossindo enquanto pedia sua bênção e se desculpava. – Respira fundo homem de Deus, parece que viu a noiva sem cabeça? - E foi pior, antes tivesse visto a noiva! disse Salomé ainda faltando-lhe ar. Então começou a contar o que tinha visto e não acreditado...
Padre Bento puxou Salomé pelos colarinho pra dentro e trancou a igreja batendo a imensa porta de madeira talhada a mão.
- Tome essa água criatura e me diga com calma o que te acometeu.
Refazendo o percurso o sacristão batia o queixo, tremendo dos pés a cabeça, detalhou ao Padre terminando com as duas mão dirigidas apontadas para o alto.
- Padre não posso acreditar, sai da sacristia e vi tudo remexido no salão e a estatua, ela desapareceu!
- Pai eterno!
- Quem poderia ter assaltado a casa do senhor?
- Primeiro não diga nada a ninguém que viu o que não viu!
- Nem a polícia? disse Salomé.
- Nem a polícia e a ninguém, se fui bem claro.
- Vou pensar o que fazer.
- Por enquanto limpe tudo isso, mas antes...
- Ajoelhe comigo e rezemos pedindo pro céus uma solução.
Enquanto rezava segurando as mãos de Salomé, imaginava a procissão saindo sem a estatua.
Decidiram esperar até anoitecer para quem sabe esse pecador pudesse mudar de idéia e então devolveria a estatua.
A igreja permaneceu fechada durante a tarde e a noite.
O dia amanheceu, logo pela manhã a movimentação tomava desenvoltura, os últimos detalhes quanto à organização era realizado. Na igreja o Padre Bento inconformado tinha de pensar em algo, passou em vigília durante a madrugada e nada da imagem. Estava com olhos fundos, cansado entre a cruz e a espada. Revelar o sumiço nesse momento causaria um tremendo alvoroço, e o cancelamento da festa, impossível nesse momento. Desfilar sem a estátua nem pensar.
Como acontece em todos os anos, hoje ás 19:00 hs. O cortejo deverá sair da igreja pela ruas da cidade.
Poucas horas antes, Padre Bento se trancou numa sala com Salomé para tomar uma decisão.
Os fieis já tomavam seus lugares se aproximando da porta da igreja para saldar Purificação com as velas acesas. A banda de música tomava sua posição, políticos iam chegando e a tarde foi cobrindo o céu para anunciar que em breve dariam início os festejos.
Quando a porta da igreja se abriu, coroinhas vestidos de anjos vieram à frente segurando partituras e harpas douradas, chuva de pétalas de rosas caíam em cima saudando a procissão. O maestro pôs a banda para tocar enquanto os foguetes cruzavam o céu para delírio da multidão. Padre Bento se aproximou da porta sendo saudado e logo atrás o andor era levado com a santa imagem toda coberta de flores e o véu por cima cobrindo a cabeça. O andor prosseguiu pelas ruas causando comoção aos fiéis que se esforçavam para tocar na estatua e pedir proteção.
O cortejo se aproximou do palanque onde o Prefeito esperava para saudar a imagem. Parada obrigatória. Dr. Caldésio leu seu discurso emocionado e cansativo abrindo as portas da cidade aos visitantes, praticamente implorando para deixassem seu ricos dinheirinhos na cidade, antes mesmo do encerramento, a banda voltou a tocar e o Padre Bento inesperadamente acelerou os passos do cortejo até finalizar ao chegar ha igreja fechando as portas. Muito dos fiéis se acotovelavam, queriam se aproximar da imagem, outros tantos eram loucamente carregados desmaiados e levados pelos socorristas até as ambulâncias de plantão. Mais que o normal, não era possível tal acometimento coletivo e repentino. No interior da igreja, de dentro do andor saiu as pressas Salomé arrancando flores e o véu que lhe cobria toda a cabeça, correndo em disparada quase voando do chão para o banheiro. Padre bento correu ao seu incauto, segurando-lhe pelos braços.
- Salomé me diga o que foi aquilo lá fora? Sentado no banco Salomé fez o sinal da cruz e contou ao Padre.
- Padre no retorno á igreja avistei a porta da igreja e eu já vinha apertado na vontade de usar o banheiro, cruzei as penas varias vezes durante o percurso e no discurso do Prefeito não agüentava mais e com a aproximação e a multidão bloqueando a passagem querendo tocar em mim, ou melhor, na Santa Imagem, vi que acelerou o cortejo, foi a gota d’água, na pressa de chegar fui batendo de mão em mão cumprimentando os fiéis, na idéia, na solução, de chegar mais rápido, mais depressa. Então muitos eu vi caindo pelo caminho, outros tantos gritavam “é milagre...”
- Graças a Deus chegamos a tempo, disse Salomé, enquanto o outro punha as duas mãos sobre a cabeça.
Nisso o Dr. Caldésio entra na igreja escancarando a porta escoltada de dois membros da guardas-civil que ficaram parados, demonstrando profunda irritação, se aproxima pisando duro tal cavalo no trote, apoiando o punho na cintura e a outra mão sobre o facão preso na cinta.Disse saindo fumaça pelas ventas.
- Quem ordenou a você Padre excomungado, que corresse com o cortejo?
- E você anão da sacristia, onde está a imagem que deveria estar dentro desta caixa? ...apontando com o dedo em riste para o andor todo desarrumado.
- Sem demora Salomé respondeu:
- Ela ia ao banheiro, se é que me entende!
- Insolente!
O Prefeito sem perceber a cena ridícula que prestava encarregou-se de averiguar se era verdade o que dizia Salomé. Tão rápido se encaminhou até o banheiro.
O Padre já de joelhos pedia perdão em prece e se ainda tinha créditos que Deus concedesse nesse momento.
Tão logo igreja ficou repleta de curiosos contidos na entrada pelos guardas do Prefeito. Nisso Caldésio retorna não menos irritado e apontando o dedo para os dois falou em tom de vingança gritando - Exigirei respostas pelo ocorrido nesta noite, alguma coisa me está cheirando mal!
Sem uma palavra e sem se despedir, rumou pelo corredor batendo as botas feito cavalo bravo até a porta onde desapareceu após empurrar diversos curiosos que se aglomeravam na entrada levando seus seguranças a tira colo.
A paz parecia ter se restabelecido, mas o que teria visto Caldésio no banheiro?
Correram o Padre e o sacristão até chegar na porta e gritar “MILAGRE” a santa voltou!
Abraçados os dois pularam, sorriram e choraram. Purificação estava salva.
E o mistério persiste pela cidade, as opiniões se dividem, foi ou não foi mais um milagre! Quem tocou na mão dos fiéis! Salomé! Como a santa foi parar no banheiro!
O certo é que mais um ano passou com a graça e a proteção de Purificação.
Quanto às explicações ao Prefeito, Padre Bento, não tardou em dar o troco.
Em carta enviada dizia:
Sr. Excelentíssimo Prefeito, Não devo explicações sobre o que ocorreu naquele dia, pois não costumamos explicar “Milagres”, e sobre o desmaios de alguns populares, queira me desculpar, O povo é e sempre será mais fiel a “Fé” e menos apegado a Política.
Atenciosamente
Padre Bento
Igreja da Purificação
Bem-vindo à Purificação
152 anos da Aparição
A Cidade dos Milagres
Autor/Escritor/Reinaldo Nunes Proença
Todos os direito@reservados
Oriente,Editora ltda

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