
Aqui Jaz!
Uma mulher aparentando 40 anos entra no cemitério para depositar flores no túmulo do marido recém falecido, ao se aproximar depara-se com uma cena nada convencional. Numa vestimenta fúnebre e de contornos muito femininos, uma mulher de aparência jovem ocupava o lugar que, com certeza seria da balzaquiana. A jovem chorava aos pés do jazigo. Confusa querendo assimilar melhor o que via, se aproximou com certo cuidado ficando assim instalada ao lado de outro túmulo. O impacto causado era mesmo assustador, o choro dessa mulher traduzia os sentimentos mais profundos, ao mesmo tempo a duvida tomava-lhe conta se estaria mesmo no local correto. A balzaquiana permaneceu petrificada, confundia-se agora com as outras estatuas. O buquê de rosas em suas mãos desalinhara de uma forma que já não se via um conjunto harmonioso entre os botões e galhos de mimosa. Era visível o nervosismo.
- Porque partiu? Nós éramos tão felizes nascemos um para o outro, disse a jovem.
Escondida no maço de flores, o rubro das suas maças denotava tamanha perplexidade e confusão mental, era a definição desse momento, esperou então que a viuvinha fosse mais clara em suas emoções.
A jovem continua...
- O bife...
A mulher.
- Que bife minha filha!
A jovem.
- O bife acebolado, você adorava lamber o prato até não precisar lavá-lo...
A mulher.
- A cebola,...Não deve ser o Fernando, ele detestava cebola, mesmo antes de sentir o sabor da comida adivinhava se tinha ou não cebola. Era por o pé na cozinha e já vinha falando da maldita cebola.
A jovem.
- A cozinha está vazia,... suas espátulas,... seus temperos, não mexo em mais nada, parecem sentir a sua falta, suas receitas...
A mulher ia remoendo cada palavra.
- Não era da mesma pessoa a quem essa fulana se dirigia. O Fernando só entrava na cozinha para beber água, me apressar nas refeições, tinha pavor à gordura, me dizia que suas roupas cheiravam a churrasco.
Começou então a ficar um pouco mais calma quanto as suas observações, logo seria um engano afirmar tamanho absurdo e um desrespeito ao envolver o benemérito falecido ao qual tinha se dedicado ao longo desses anos tão somente aos cuidados do lar da família e seu. Voltemos então...
A jovem.
- Não tenho forças para continuar vivendo... Estou só meu amor... Pensei que fossemos ficar juntos Fefê querido...Fala comigo...
A mulher.
- Fefê o quê? Meu Deus! Disse a escondida, desembucha. Feliciano, Félix...Pode ser Fedato, outro nome menos Fernando. Não agüento mais esperar.
Parecia estar lendo os lábios da jovem e o seu sexto sentido numa sobre vida falou mais alto, alias dos sentidos era o único, pois os anteriores já não lhe davam nenhuma resposta. Num lapso de tempo arremessa o buquê para o alto e bem longe e este gira em slow motion enquanto silabavam juntinho o nome de toda essa confusão. F/E/R/N/A/N/D/O!
- ...Fernando fala comigo, me dá um sinal que você está me escutando...
A mulher já sentindo a traição do morto, caiu em prantos. Agora o desespero tomava-lhe conta, a maquiagem descia misturada ao choro convulsivo, ajoelhada com a cabeça baixa, já não tinha mais duvida. Fernando era mesmo um facínora, um crápula, cafajeste. Declamou seu texto assentado no ódio na tristeza e na angustia sem poupar-lhe adjetivos enquanto socava o jazigo de um morto qualquer. E continuou...gritando. Fernando seu traidor de lar. Incontrolável, agora desmanchava flores do canteiro, remexia a terra e quebrava vasos. Pobre mulher.
Houve-se passos, uma terceira pessoa. Uma mulher aparentando ser mais velha se aproxima e presencia a fúria dominante naquela mulher traída. A sexagenária se aproximara da balzaquiana mantendo uma distância segura e põem-se a escutar.
- Você detestava cebola seu cretino! Você não fritava um ovo se quer... Se eu soubesse que havia outra mulher...Eu mesma teria te matado cachorro...Fernando levanta daí seu frouxo!
Ao escutar o nome Fernando, a sexagenária começa a passar mal. – Quem seria essa mulher a destilar tanto ódio? Sem poder dizer mais nada desmaia ali mesmo, entre um túmulo e outro.
É então encontrada minutos depois, deitada segurando um arranjo de flores sobre a barriga, por um funcionário do cemitério. Assustado o homem cutuca a velha pra se ter certeza do óbito, mas de sorte ainda respirava. Passado o susto inicial, toma-lhe o braço pelas costas e lhe aplica uns tabefes na bochecha reanimando-a.
A velha acorda.
Agarra-o pelo pescoço e grita. - Imbecil! Me solta você não merece meu carinho, seu traidor, escondeu de mim todo esse tempo, tire suas mãos sujas de cima de mim, onde já se viu Fernando, seu velho frouxo, mulherengo!
O funcionário.
- Eu sou o Brito minha senhora, só Brito o coveiro, acalma. A senhora desmaiou bem aqui.
Recompondo-se do desalinho, rapidamente levanta apoiando-se em seu ombro e se afasta dando-lhe um empurrão, então sem jeito deixa as flores e outros adornos no braço deste, e sai cambaleante apoiada com uma das mãos nos quartos e a outra na testa, entre as pequenas ruas do cemitério até sumir de vista.
Brito coça seus miolos – Aqui é assim cada dia uma surpresa,... Morto que aparece vivo e vivo que aparece morto.
A paz e a tranqüilidade que parecia ter desaparecido deste lugar novamente se restabelece.
O silêncio do final de tarde se mistura a neblina que rapidamente cobre grandes mausoléus. Últimos visitantes passavam pelo portão principal fazendo o sinal da cruz e vão embora.
Às dezoito horas em ponto toca o sino e o portão é fechado.
Do grande corredor principal do cemitério escuta-se passos, do meio da densa neblina aparece a figura de um homem alto, alinhado num terno cinza escuro e passa cortando as encruzas parecendo alma perdida. Na verdade é seu Leonel, Administrador do cemitério, nas mãos segura três finas peças feitas em mármore branco com detalhes e gravações em dourado.
Aqui Jaz.
Fernando Costa Lima,
Aqui Jaz.
Fernando Duarte,
Aqui Jaz.
Fernando de Souza Melo,
...Lembranças da Esposa e Família...
Obs. Em todas as lapides lia-se.
Descanse em Paz.
Reinaldo Nunes Proença
reinaldo_rnp@hotmail.com
Título/Aqui Jaz!/Crônica.
Todos os direitos@reservados.
Oriente,Editora ltda.

Nenhum comentário:
Postar um comentário